Vencedora – Prêmio Faz a Diferença

Entre setembro e outubro de 2015, semanas antes de o surto de microcefalia ligado à epidemia de zika alarmar o Brasil todo, a obstetra e pesquisadora Adriana Melo observou, na Maternidade Instituto Saúde Elpídio de Almeida, em Campina Grande, na Paraíba, um aumento no número de fetos com malformação.

Na mesma época, ao examinar uma gestante em uma de suas clínicas privadas, a médica ficou intrigada com a estrutura do cerebelo do feto, e, três semanas depois, viu que a cabeça do bebê não tinha crescido. Adriana identificou ali um caso de microcefalia, mas somado a calcificações que indicavam infecções. Estes dois achados num mesmo feto, diz a especialista em medicina fetal, eram algo sem precedentes. Na semana em que ela pediu a coleta do líquido amniótico da gestante para prosseguir com a investigação, órgãos de saúde divulgaram o registro de 60 casos de microcefalia em Pernambuco. Todos com um histórico em comum: as mães apresentaram, no primeiro semestre de gestação, sintomas da zika, como manchas vermelhas na pele.

— Liguei para a paciente da clínica particular, que é fisioterapeuta, e ela disse que também teve zika no início da gravidez. Comecei a pesquisar e juntei as peças. Depois de procurar várias pessoas, consegui enviar o líquido amniótico dela para a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) no Rio, junto com outra amostra colhida de uma paciente do serviço público, cujo feto tinha um quadro muito mais grave de microcefalia — relata Adriana Melo.

De acordo com a médica, as análises ficaram prontas numa segunda-feira, e, no dia seguinte, o Ministério da Saúde anunciou, com base nos resultados, a comprovação em laboratório da ligação da zika com a microcefalia. A partir daí, seguindo a comoção gerada pelos recém-nascidos com sequelas da doença no Brasil e em outros países, a comunidade científica se debruçou sobre os efeitos devastadores desse vírus no desenvolvimento fetal. Mais de um ano depois, os mistérios dessa doença, que, como dengue e chicungunha, também é transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, ainda desafiam a ciência e evidenciam as falhas do atendimento público no país

— O Nordeste é pobre em termos de assistência. O serviço público só oferece duas sessões de fisioterapia por semana aos bebês com microcefalia. Eles precisam de pelo menos quatro ou cinco sessões. Até agora o país não deu a atenção devida a essas pessoas — critica Adriana, que ainda acompanha a primeira paciente a ter o material colhido e enviado à Fiocruz, em outubro de 2015. — O bebê nasceu, hoje tem 1 ano e se chama Catarina. Está se desenvolvendo bem, com algum atraso, mas muito perto do normal. Ela tem sorte, porque a mãe, Jéssica, é fisioterapeuta e faz sessões diárias com a filha.

O zelo com as pessoas que mais precisam de sua ajuda faz de Adriana uma cientista especial. Na opinião da médica, a pesquisa em saúde deve estar aliada ao atendimento. A especialista é presidente do Instituto de Pesquisa Professor Joaquim Amorim Neto (Ipesq). Organização sem fins lucrativos fundada por Adriana e outros médicos em Campina Grande, o instituto desenvolve estudos na área de saúde do feto e da criança, muitas vezes em parceria com universidades. Mas não perde de vista a importância de prestar assistência a famílias vítimas de diferentes males.

Na bagagem, mais de 20 anos de pesquisa

Um dos casos atendidos pelo Ipesq é o de um bebê com microcefalia que também sofre de artrogripose, doença genética rara. Com 1 ano de idade e apenas 4kg de peso, ele precisa alcançar 10kg para ser submetido a uma cirurgia importante, mas, como tem muita dificuldade para deglutir alimentos, necessita de um leite em pó especial. Só que cada lata custa R$ 150, e são necessárias cinco latas por mês. Como o serviço público não provê o alimento, o instituto fez uma campanha para levantar os recursos. Os médicos chegaram a dar aulas em troca de leite.

— O instituto foi criado por doutores inconformados com a falta de assistência em Campina Grande — observa a obstetra, que tem dois doutorados e 20 anos de pesquisa na bagagem. — Achamos que a pesquisa médica tem que estar sempre ligada à assistência, principalmente porque a zika é uma doença nova, e a gente precisa criar modelos de excelência.

Adriana cresceu em Pocinhos, na Paraíba, e foi estudar Medicina na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). Fez residência em Recife e especializou-se em Medicina Fetal na UFRJ. Ela adorou o Rio, mas seu objetivo sempre foi voltar à terra natal para criar lá um serviço até então inexistente na Paraíba.

— Gosto muito do Rio, você pode fazer pesquisa, mas o clima é light, tem muita natureza, e os cariocas são ótimos — conta a médica, que é mãe de duas filhas, de 18 e 20 anos. — Mas minha família toda é paraibana, e não gosto da vida da cidade grande. Prefiro a tranquilidade. Meu maior hobby é fazer pesquisa.

Fonte: O Globo

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